
10 anos sem Jorge Amado
(1912-2001)
Para referenciar Jorge Amado, nada mais carinhoso que, dentre sua vasta obra, escolher uma linda fábula que retrata o amor impossível entre dois seres tão diferentes:
A história foi escrita em Paris (1948), inspirada em uma trova de Estevão da Escuna (poeta popular de Salvador) e oferecida ao seu filho, João Jorge, como presente pelo seu primeiro aniversário. Permaneceu guardada até 1976 quando João Jorge - com quase 30 anos - entregou-a ao artista baiano Carybé que, com suas lindas aquarelas, deu vida àquelas páginas apenas datilografadas até então.
Diante de tanta beleza, Jorge Amado finalmente publicou:
"O gato malhado e a andorinha Sinhá"
Nessa linda fábula, o amor não era impossível só porque o gato era mal visto por todos os bichos do lugar, mas também, porque a andorinha estava prometida ao rouxinol.
Tendo como cenário as passagens das estações do ano, a história começa numa madrugada, logo antes da primavera, atravessa o período que as paixões afloram, depois acompanha o verão, tempo da felicidade passageira, segue rápido em direção ao outono, "um tempo cinzento em que as árvores perdem suas folhas e o céu se despede do azul", até se deparar com o inverno, onde tudo parece mais triste e as coisas se esfriam entre o gato e a andorinha Sinhá.
Todo esse lirismo e acúmulo de sentimentos e belezas, misturados a uma contestação às diferenças, conseguem nos levar a inúmeras reflexões.
Nada mais justo do que terminar estes dizeres com o que levou nosso grande escritor a criar essa bela história, o poema de Estevão da Escuna, o qual inicia o livro:
"O mundo só vai prestar
para nele se viver
no dia em que a gente ver
um gato maltês casar
com uma alegre andorinha
saindo os dois a voar
o noivo e sua noivinha
dom gato e dona andorinha"
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Jorge Amado. Carybé il. Companhia das Letrinhas. 5a reimpressão 2010 (atualizada segundo o acordo ortográfico).


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